Cargill-MacMillan: novas estratégias da família empresária

 In Cases

A Cargill é exemplo de uma empresa familiar bem sucedida: criada em 1865, ela ainda permanece sob controle da família que a fundou, sendo o principal ativo em seu portfólio. Os herdeiros possuem 90% das participações na corporação que é a maior empresa de capital fechado dos Estados Unidos, e uma das mais importantes mundialmente no setor agrícola, com receita de US$ 114.7 bilhões em 2017. Entre os mais de 100 herdeiros, 14 são bilionários – a família com mais bilionários no mundo, segundo a Forbes[i].

Apesar de ser conhecida pelo sobrenome de seu fundador, W. W. Cargill, a família é também composta pelos MacMillan desde uma união conjugal em 1895. Ambas atuavam com a estocagem e revenda de grãos no interior dos Estados Unidos, e juntas tornaram-se proprietárias de um império agrícola sem precedentes. Os Cargill-MacMillan instalaram centenas de depósitos e elevadores de grãos ao longo das ferrovias que surgiam no século XIX, garantindo maior eficiência e redução de custos de transporte. Durante as décadas seguintes as empresas da família foram muito além das fronteiras nacionais e hoje possuem atividades em 65 países.

A Cargill está no centro do patrimônio familiar, e dentro dela a família apostou na diversificação, incorporando inúmeras empresas de diferentes setores. Além da estocagem e processamento de alimentos, também possui investimentos em serviços agrícolas, alimentos, saúde e farmacêuticos, indústria e gestão de risco. A diversificação mostra a mentalidade investidora priorizada pela família, que ultrapassou o setor de origem da empresa e enxergou oportunidades em novos ramos.

A empresa, ainda que de capital fechado, não é mais de posse integral dos Cargill-MacMillan: em 1993, observando a necessidade de aumentar a liquidez dos ativos para garantir aos familiares maior acesso à riqueza, a família optou por um plano de ações para funcionários. O plano consistiu na venda de 17% das participações na Cargill na época, mantendo o restante nas mãos da família, estratégia que solucionou o problema da falta de liquidez ao mesmo tempo que evitou a necessidade de abrir o capital da empresa. Essa foi uma das principais iniciativas da família rumo à uma visão mais global do patrimônio, demonstrando que está disposta a abrir mão de uma parte do ativo em nome de outros objetivos, como novos investimentos e melhor distribuição dos dividendos.

Em toda a trajetória, as primeiras gerações estiveram bastante ativas na gestão do patrimônio e na rotina operacional das empresas, trabalhando e administrando diretamente os depósitos e elevadores. Já as gerações mais recentes optaram por um certo distanciamento do dia-a-dia dos negócios, a maioria permanecendo como acionistas. O último membro da família a ser CEO da Cargill foi Whitney MacMillan, no cargo de 1976 a 1995, e somente um membro possui dedicação integral à administração da empresa atualmente. Apesar disso, a família mantém seu protagonismo formando o conselho da Cargill, com seis membros, e possui ainda seu próprio family office desde 1965, chamado de Waycrosse – criado pela terceira geração, cem anos após W. W. Cargill iniciar os negócios com o primeiro armazém.

O family office tem sido essencial para a família, que não deseja abrir o capital de sua principal empresa, e as práticas de Governança Patrimonial estabelecidas auxiliam a lidar com seus ativos de forma responsável e sustentável, como foi o plano de ações para funcionários. Sendo uma família numerosa, é importante que o patrimônio seja administrado de forma a garantir conforto para os herdeiros através dos dividendos, mas sem comprometer o rendimento dos investimentos no longo prazo.

O family office ainda busca criar uma estratégia para alocar os investimentos em ativos que façam sentido em cada momento: em 1998, por exemplo, a Cargill se desfez de uma empresa de sementes, um ano depois de enfrentar fortes dificuldades após a crise financeira asiática; em 2004, foi a vez de abandonar a produção de aço. Nas duas situações, a família considerou os prós e contras de manter os negócios sob o controle do portfólio, optando por deixar de investir neles uma vez que o consumo de capital em ambos era insustentavelmente alto. A estratégia é não se prender aos ativos, podendo se desfazer de determinados investimentos ou incluir novos de acordo com os objetivos da família, e olhando para a sustentabilidade do patrimônio no longo prazo. Os investimentos acompanham a evolução dos interesses da família, que constantemente busca o alinhamento entre os dois.

Para o futuro, terá de lidar com alguns obstáculos. Um deles é a guerra comercial declarada pelo governo norte-americano sobre importações de diversos países, que terão efeitos diretos sobre a indústria agrícola e nos investimentos da Cargill fora dos Estados Unidos. Além disso, é necessário cautela para que os investimentos sigam condutas que visam diminuir os impactos. Recentemente, a Cargill foi multada em R$ 5 milhões por comprar grãos de fornecedores em situação ambiental irregular no Brasil, demonstrando a importância de se responsabilizar por sua cadeia de produção para que perdas similares sejam evitadas e de considerar o capital social – referente ao relacionamento da família com a sociedade e ambiente que a cerca – do patrimônio.

Apesar dos desafios postos, a Cargill continua altamente lucrativa para a família. Em 2017, os dividendos atingiram o maior nível dos últimos sete anos, somando US$ 551 milhões, segundo o Financial Times[ii]. Já o faturamento chega em média a US$ 100 bilhões anualmente, permitindo o reinvestimento de resultados na empresa e a sustentabilidade do negócio, sem ter de recorrer a emissão de ações para o financiamento. Em uma família que faz questão de ser a protagonista do patrimônio e manter seu principal ativo sob seu controle, as boas práticas de governança e gestão do patrimônio são essenciais para a realização deste objetivo no longo prazo.

 

[i] Forbes. “Cargill-MacMillan family”. Disponível em https://www.forbes.com/profile/cargill-macmillan-1/#5b65452523b6>. Acesso em 12 de setembro de 2018.

[ii] Valor Econômico. “Dividendos em alta”. Disponível em <http://mobile.valor.com.br/agro/5829087/dividendos-em-alta?utm_source=WhatsApp&utm_medium=Social&utm_campaign=Compartilhar>. Acesso em 12 de setembro de 2018.

 

Leia o case completo aqui.

 

CLARA LINS GOMES

Responsável por Pesquisa & Desenvolvimento de conteúdo na INEO.

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