Um novo conceito no mundo dos investimentos

 em Investimento de Impacto

Artigo 1 da série sobre Fatores ESG e Investimentos de Impacto e Famílias Investidoras

Desde a década de 1990 um novo conceito vem ganhando espaço relevante nas análises e diligências de investidores, liderado por países como Reino Unido, Holanda, Canadá e Austrália, e se consolida especialmente nos anos 2010. O que era conhecido no mercado como Investimento Responsável ou Investimento Sustentável, foi denominado pelo CFA Institute[1] como Fatores ESG (Environmental, Social e Governance – Ambiental, Social e Governança).

Ainda recente, o conceito está em processo de uniformização. Entretanto, como o nome indica, ele envolve a análise atenta das variáveis relevantes contidas nos fatores ambiental, social e de governança, listadas no quadro a seguir:

Tabela 1: Fatores Ambientais, Sociais e de Governança

Fatores Ambientais Fatores Sociais Fatores Governança
Aquecimento Global e Emissão de Carbono Proteção de dados e privacidade Composição de conselhos
Poluição do ar e água Satisfação dos consumidores Estrutura de comitê de auditoria
Biodiversidade Diversidade e gênero e Direitos Humanos Lobby
Desmatamento Envolvimento dos empregados Contribuições Políticas
Gestão de Lixo Relações com a comunidade Compensação de Executivos
Escassez de Água Direitos humanos Corrupção

Fonte: ESG Issues in investing: A guide to investment Professionals. CFA Institute (2015).

Os fatores ESG, ou ASG em português, podem ser aplicados a diversos tipos de investimento, como ações de empresas abertas, títulos de renda fixa, investimento imobiliário e Private Equity. Sua utilização pode render não só um investimento mais consciente e responsável, como também reduzir os riscos das aplicações e, potencialmente, ampliar as possibilidades de retorno das aplicações no longo prazo, de acordo com a literatura acadêmica recente. Portanto, considerando o foco de longo prazo da gestão de carteiras dos Family Offices e sua preocupação com perpetuidade, pode ser uma ferramenta útil em seu dia a dia.

Sua aplicação pode se dar de diversas formas. De acordo com o CFA Institute, existem seis estratégias básicas que podem ser utilizadas:

  1. Investimento por exclusão é a técnica mais antiga e tem origens religiosas. Envolve a exclusão de investimentos e setores inteiros com base em valores morais, como empresas que ferem direitos humanos universais. De técnica mais utilizada, vem rapidamente perdendo espaço para estratégias mais sofisticadas;
  2. Investimentos temáticos são investimentos com um tema específico, como um fundo que só investe em tecnologias limpas ou reflorestamento sustentável. Não é uma estratégia exclusiva do ASG;
  3. Active Ownership é a atividade de deter participação em investimentos e ativamente promover as melhores práticas de ASG dentro da companhia emissora do ativo;
  4. Investimento de Impacto é o investimento em empresas e ativos que tenham por objetivo explícito não somente a geração de valor econômico, mas também o impacto social e/ou ambiental positivo. Tal impacto deve ser medido e a aplicação deve gerar retorno financeiro ao investidor;
  5. Best-In-Class é a estratégia que envolve a preferência, em determinado setor, pelo investimento com melhor performance nas variáveis ASG, ou então a preferência por um ativo que esteja melhorando sua performance em ESG;
  6. Por último, o tipo de investimento que mais cresce em termos absolutos é a integração de fatores ESG à análise de ativos. Assim como a Governança já possui relevância nas discussões sobre investimento, sendo integrada organicamente nas análises e diligências, seriam também integrados os itens Ambientais e Sociais.

Gráfico 1: Técnicas mais frequentes de ESG utilizadas pelos investidores

Fonte: ESG Issues in investing: A guide to investment Professionals. CFA Institute (2015).

Nas palavras de Ban Ki-Moon, ex-secretário geral da ONU, “um número cada vez maior de investidores […] está incorporando fatores ASG em suas tomadas de decisão de investimento e práticas de propriedade de ativos a fim de reduzir riscos, ampliar retorno financeiro e atender às expectativas de seus beneficiários e clientes”.

De acordo com o PRI (Principles for Responsible Investing), união de gestores que incorporam o ASG em seus investimentos, o total sob gestão de seus membros saltou de menos de US$10 trilhões em 2006 para mais de US$60 trilhões em 2016. A fim de comparação, foi estimado pelo Deutsche Bank que o total de ativos financeiros no mundo é de pouco menos de US$300 trilhões.

Gráfico 2: Total de ativos sob gestão dos participantes do PRI

Fonte: ESG Issues in investing: A guide to investment Professionals. CFA Institute (2015).

O conceito dos Fatores ESG caminha a passos largos para uma posição de destaque no mercado financeiro, não somente pela ampliação do escopo na análise de investimentos, mas também pela sua velocidade de adoção e montante financeiro sob gestão que utiliza tais informações.

Pelo lado do investidor, vê-se que as novas gerações familiares, ao se aproximarem do mundo dos investimentos e do seu capital financeiro, naturalmente trazem o assunto mesmo sem ainda conhecer o conceito ESG. Nesse sentido, entende-se como fundamental às Famílias Investidoras sua compreensão e adoção, ainda que gradual. Portanto não parece ser tanto uma questão de “se”, mas de “quando” serão incorporados.

[1] Respeitada congregação internacional de profissionais de investimento.

 

Sobre os autores

Miguel Gomes é formado em economia pela PUC-Rio e é detentor da certificação Chartered Financial Analyst (CFA). Após anos de atuação no mercado financeiro, hoje é gestor do time de Planejamento Financeiro da Stone Pagamentos.

Antonio Azevedo é sócio-diretor na INEO e coautor do livro A Família Investidora e o Family Office.

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