A inexistente dicotomia entre investimento sustentável e rentável

 em Investimento de Impacto

Artigo 2 da série sobre Fatores ESG / Investimentos de Impacto e Famílias Investidoras

O mercado financeiro observou nos últimos anos o crescimento vertiginoso da aplicação de Fatores ESG na análise de investimentos. Traduzida do inglês, a sigla representa os termos Ambiental, Social e Governança, e as técnicas envolvem considerar fatores relevantes de cada item – tais como aquecimento global, segurança dos empregados e corrupção – na diligência e análise tradicional dos investimentos.

O crescimento do ESG, porém, não foi sem superação de barreiras e críticas diversas. Segundo Michael Porter e Mark Kramer, em um paper da Harvard Business School de 2011[i], um dos críticos à Responsabilidade Social Corporativa foi Milton Friedman em um texto de 1970 chamando de socialistas os defensores do conceito, argumentando que a responsabilidade dos gestores de negócio seria basicamente a maximização de lucro.

De acordo com o paper, após muitos anos de críticas e perda de reputação por diversos episódios de trabalho escravo, corrupção e descaso com seus clientes, as empresas começaram a desenvolver áreas de Responsabilidade Social como um paliativo, tratado como um gasto necessário, trocando retorno financeiro por gastos na área.

Mais recentemente, os mundos empresarial e acadêmico começaram a discutir se essa aparente dicotomia entre sustentabilidade e lucros de fato existia.

A Universidade de Oxford e a gestora Arabesque Partners realizaram em 2015 um meta-estudo com mais de 200 estudos acadêmicos sobre políticas empresariais de ESG[ii], buscando entender sua relação com a performance operacional das empresas, seu custo de capital e sua performance acionária. Em 90% dos estudos sobre custo de capital observou-se uma relação negativa entre esta variável e boas políticas de ESG, indicando, portanto, que boas práticas geram custo de capital menor. Nos casos de performance operacional e acionária, respectivamente 88% e 80% dos estudos mostraram uma relação positiva entre estas variáveis e boas práticas de ESG.

Tais estudos destacam diversas razões para a performance positiva da aplicação de ESG nos negócios e investimentos. Basicamente, estas razões podem ser agrupadas em três pontos:

  1. A melhora de resultados das empresas – que pode ocorrer por expansão de receitas, com descobrimento de novos mercados e inovação; ou pela utilização mais eficiente de recursos, como menos desperdício ou trabalhadores mais motivados e produtivos;
  2. Redução de riscos – com empresas mais detalhistas sobre aspectos ambientais e de seus stakeholders. Um cuidado maior pode reduzir potenciais problemas e melhorar a resposta da empresa em casos emergenciais – como o rompimento de uma barragem, por exemplo – e dar mais tranquilidade a investidores e financiadores quanto à atenção da empresa;
  3. Melhora de reputação da empresa – o que pode aprimorar sua relação com investidores e stakeholders em geral. Melhor reputação pode criar fornecedores e trabalhadores mais produtivos e engajados, clientes mais fidelizados e dispostos a pagar mais e agentes reguladores com melhor visão sobre a empresa.

Um dos 200 estudos que embasaram Oxford e a Arabasque partners foi realizado em 2011 por Alex Edmans na Universidade de Wharton. Seu foco foi o aspecto Social do ESG, estudando o tratamento das empresas em relação a seus empregados. Para isso coletou dados das 100 melhores empresas para se trabalhar anualmente por 26 anos, nos EUA. Sua estratégia era investir nas melhores empresas considerando que o ranking era uma boa proxy para incentivo e boas práticas das empresas em relação ao seu capital humano. O resultado foi um portfólio que gerou um retorno 2 pontos percentuais ao ano acima do benchmark de empresas comparáveis.

Outro estudo representativo foi realizado pela universidade de Harvard, em 2014[iii], comparando a performance acionária de dois grupos de 90 empresas muito similares, exceto pela adoção de políticas de ESG. Um dólar aplicado em 1992 no portfólio das 90 empresas com melhores práticas de ESG geraria, em 2010, por volta de USD 23,00, enquanto o mesmo investimento aplicado em 1992 no portfólio das 90 piores empresas em práticas de ESG geraria, em 2010, por volta de USD 15,00 – uma diferença de 53%. Abaixo o gráfico retirado do estudo com a performance dos ativos.

Gráfico 1 – Performance acionária dos Portfolios

Eccles, Robert; Iannou, Ioannis; Serafeim, George. The impacto of corporate sustainability on Organization Processes and Performance (2014)

Independentemente da estratégia de investimentos que utilize fatores ESG e da classe de ativos investida – Imobiliário, Ações de empresas abertas, Private Equity, ativos de Renda Fixa –, tais análises têm uma visão de mundo não estática e um perfil de longo prazo. Tal perspectiva combina com o perfil de longo prazo de famílias investidoras e pode ser utilizada como complemento da análise tradicional a fim de alinhar a visão de prazo do ativo e de seu capital investido.

Além de não existir trade-off aparente entre investimentos sustentáveis e resultados econômicos, conforme mostrado anteriormente, práticas sustentáveis podem ainda ser muito benéficas para o ambiente e para a sociedade – comunidade, empregados, fornecedores, clientes – o que pode ser um dos objetivos da política de investimentos de um Family Office.

[i] Porter, Michael E., and Mark R. Kramer. “Creating Shared Value.” Harvard Business Review 89, nos. 1-2 (January–February 2011): 62–77.

[ii] Arabesque Partners, University of Oxford (2015). From the Stockholder to the Stakeholder. Disponível em https://insights.arabesque.com/research/.

[iii] Eccles, Robert G. et al. “The Impact of Corporate Sustainability on Organizational Processes and Performance.” Harvard Business School. Management Science 60 (2014): 2835-2857.

 

Sobre os autores

Miguel Gomes é formado em economia pela PUC-Rio e é detentor da certificação Chartered Financial Analyst (CFA). Após anos de atuação no mercado financeiro, hoje é gestor do time de Planejamento Financeiro da Stone Pagamentos.

Antonio Azevedo é sócio-diretor na INEO e coautor do livro A Família Investidora e o Family Office.

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