Investimentos de Impacto como nova classe de ativo

 em Investimento de Impacto

Artigo 3 da série sobre Fatores ESG / Investimentos de Impacto e Famílias Investidoras

Investimentos de impacto são uma modalidade de investimentos que busca, de maneira intencional e mensurável, retornos financeiros aliados a impactos sociais e ambientais positivos. Dentro de um espectro tradicional de investimentos, eles estariam além dos fatores ESG mas antecedem a filantropia, uma vez que existe a expectativa de retornos financeiros. Estes retornos esperados podem ser abaixo de mercado, nos chamados “impact first”, mas também dentro ou acima do mercado em temáticas específicas que também tragam impactos positivos ambientais ou sociais.

O espectro abaixo traduz as modalidades de investimentos e onde os investimentos de impacto se colocariam.

  INVESTIMENTO CLÁSSICO INVESTIMENTO RESPONSÁVEL INVESTIMENTO SUSTENTÁVEL INVESTIMENTO TEMÁTICO IMPACT FIRST FILANTROPIA
OBJETIVO Selecionar investimentos que maximizem o retorno ajustado ao risco Evitar investir em setores e empresas considerados “ruins” Investir ativamente em setores e empresas considerados “bons” Investimentos direcionados a uma questão social e/ou ambiental específica Investimentos que maximizam resultados sociais e/ou ambientais Selecionar caridades que maximizam resultados sociais e/ou ambientais
ESTRATÉGIA Gestão de investimentos passivos ou ativos Triagem negativa de certos setores e empresas (como de combustíveis fósseis, tabaco etc.) Triagem positiva de certos setores e empresas baseados em fatores ESG Selecionar investimentos em setores de impacto alvo (como educação ou assistência médica) Selecionar investimentos com potencial para impacto positivo máximo Doações tradicionais

Fonte: Bridges, Sustainable & Impact Investment – How we define the market. 2012; USHER, Bruce. Palestra: Impact Investing Ventures from a U.S. Perspective. The Tamer Center for Social Enterprise, Columbia University, São Paulo, 2017.

De acordo com dados da pesquisa “Global Family Office Report 2017”, da Campden Research, mais de 60% dos family offices globais estão engajados, de alguma forma, em atividades filantrópicas. No Brasil, o número deve ser parecido, se não maior.

Nos últimos anos, entretanto, uma boa parte da atividade tradicional de filantropia das famílias tem sido direcionada aos investimentos de impacto. De acordo a mesma pesquisa, cerca de 30% dos family offices já estão engajados de alguma forma em investimentos de impacto, enquanto outros 30% estão pensando em se engajar de alguma forma no futuro próximo.

Dentre os principais benefícios para uma família desenvolver um programa de investimento de impacto estão:

  1. Criar um legado positivo, de modo que uma parte dos investimentos esteja alinhada com os objetivos e valores da família de forma mais sustentável no longo prazo;
  2. Engajamento das novas gerações, permitindo que a família passe seus valores e traga um número maior de membros para as decisões financeiras do family office por meio de investimentos de impacto. Uma pesquisa recente do UBS demonstrou que, para 90% das pessoas com menos de 30 anos, riqueza financeira é muito mais importante para ter experiências e gerar impacto do que para ter bens materiais.
  3. Oportunidade de criar um “programa de treinamento” em investimentos permitindo que membros da família com diferentes interesses (não somente os financeiros) possam se engajar. Além do benefício de transmitir os valores e cultura de impactos positivos da família, demonstra a importância da due diligence e de se medir retornos financeiros e do impacto ao longo do tempo. Ou, como dito em uma conferência, “uma mistura de Warren Buffet e Mahatma Gandhi” que une pessoas com interesses diferentes dentro das famílias.
  4. União e legado familiar por meio de decisões conjuntas e acompanhamento de investimentos que endereçam diferentes valores e objetivos dentro de uma família, de forma que haja uma melhor comunicação e relacionamento entre as diferentes gerações.
  5. Maior cooperação e facilidade de desenvolvimento de network global com outras famílias e family offices que tenham objetivos semelhantes.

Dentro do espectro de investimentos de impacto, alguns endereçam mais objetivos das famílias com um viés direcionado à filantropia, enquanto outros, como energias sustentáveis, saúde e educação, podem endereçar muito bem famílias cujos objetivos sejam mais voltados ao empreendedorismo.

De acordo com dados de 2017 da Global Impact Investing Network (GIIN), com um universo de 208 investidores, os ativos totais em investimentos de impacto alcançaram USD 114 bilhões, sendo a maior parte investida nos setores de moradia, educação e microfinanças.

Fonte: Annual Impact Investor Survey. Global Impact Investing Network. 2017.

Para 91% dos investidores, os retornos financeiros estão iguais ou melhores que o esperado, e para 98% os retornos sociais e ambientais estão iguais ou melhores que o esperado. Isso demonstra, na prática, que o setor tem crescido de forma consistente e sustentável.

Muitos family offices estabelecem seus focos dentro dos investimentos de impacto com base em um ou alguns dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável presentes na Agenda 2030 da ONU, listados abaixo. De acordo com dados da GIIN, 37% dos investidores medem o impacto em relação aos objetivos de desenvolvimento sustentável.

Fonte: Organização das Nações Unidas.

Algumas famílias estão, inclusive, buscando um portfólio 100% de impacto, desenvolvendo processos e metodologias para atingir este objetivo em um horizonte de tempo não muito longo e de forma a não arriscar a preservação do patrimônio acumulado. Isso é um grande desafio, mas tem gerado forte cooperação entre famílias com objetivos semelhantes no mundo.

Outro desafio para as famílias tem sido a dificuldade em acessar empresas, produtos ou gestores de impacto. Existe ainda, de um lado, um baixo conhecimento, ou vontade, por parte de bancos e alocadores sobre os investimentos de impacto. De outro lado, existe a dificuldade das famílias no Brasil conhecerem e acessarem os bons fundos já consolidados nos EUA e Europa.

É fundamental que o mercado se estruture melhor para atender a essa demanda crescente por parte das famílias, principalmente as que estão em estágios mais avançados de maturidade como investidoras e bem organizadas.

Os investimentos de impacto ainda estão nos estágios iniciais no Brasil, mas já com participação destacada de alguns family offices e fundos. É esperado que o forte crescimento observado principalmente nos EUA e Europa chegue ao Brasil em alguns anos e que o setor se desenvolva rapidamente. Assim, as famílias investidoras terão mais alternativas e poderão se engajar mais ativamente em investimento de impacto.

 

Sobre o autor

Antonio Azevedo é sócio-diretor na INEO e coautor do livro A Família Investidora e o Family Office.

 

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