Filantropia vs. Investimento de Impacto

 em Investimento de Impacto

Artigo 4 da série sobre Fatores ESG / Investimentos de Impacto e Famílias Investidoras

Historicamente, indivíduos e famílias com grandes fortunas com frequência demonstraram sua preocupação em retribuir seus ganhos para a sociedade. A filantropia, caracterizada pela caridade e doação de recursos – especialmente financeiros –, tem sido a principal forma adotada pelas classes mais abastadas para causar um impacto positivo na vida das pessoas com menos recursos e no suporte a causas diversas, como incentivo à educação, erradicação de doenças ou proteção ambiental.

John D. Rockefeller, fundador da Standard Oil, a primeira grande petroleira do mundo no século XIX, foi um dos pioneiros norte-americanos a praticar a filantropia, doando parte da riqueza obtida com a exploração de petróleo à Igreja e instituições de caridade, em linha com seus valores. A tradição iniciada por Rockefeller foi seguida por seus contemporâneos, como Andrew Carnegie, e pelas novas gerações de grandes empresários e investidores. Também é comum que grandes empresas tenham institutos em seu nome dedicados à projetos filantrópicos.

Na atualidade, outros influentes investidores aparecem como filantropos. Bill Gates, fundador da Microsoft, junto à sua esposa criou a Bill and Melinda Gates Foundation, a maior fundação privada dos EUA, com cerca de USD 44,3 bilhões em 2014[i], voltada à promoção do acesso à saúde e redução da pobreza no mundo. Já Mark Zuckerberg, criador do Facebook, anunciou recentemente que doaria 99% de suas ações da rede social para ações de caridade, ao longo de sua vida.

Entretanto, pensando em resultados a longo prazo e em iniciativas que de fato estimulam mudanças estruturais que beneficiem a sociedade, a filantropia pode não ser a melhor opção. Ela possui uma série de limitações:

  1. Insustentabilidade no longo prazo: simplesmente doar dinheiro, sem preocupar-se com a geração de um retorno capaz de sustentar o projeto ao longo do tempo, determina que o mesmo não será duradouro.
  2. Geração de dependência financeira: sem iniciativas que estimulem a autonomia dos receptores das doações ou aplicação em projetos autossustentáveis, o benefício sempre dependerá de doações para se manter.
  3. Doações são destinadas de acordo com os interesses dos doadores, que nem sempre correspondem às reais necessidades e urgências dos receptores.
  4. Em casos de doações internacionais, em geral são intermediadas pelos governos locais, tornando-as sujeitas a desvios, corrupção e burocracia pública.
  5. A filantropia pode desestimular as populações atendidas na busca por sua autonomia e atividades em que sejam protagonistas.

No livro The Blue Sweater[ii], Jacqueline Novogratz relata suas experiências em vários países africanos onde grande parte da população depende de doadores externos. Na prática, a caridade alimentava um ciclo de perpetuação da pobreza, no qual nenhum planejamento de longo prazo é feito a partir das doações e os pobres permanecem na posição de receptores que aguardam a boa vontade de terceiros, sem possibilidade de interferirem no processo.

Como alternativa à filantropia, que enfrenta os problemas citados, é cada vez mais recorrente a aplicação dos Investimentos de Impacto, que podem ser classificados em diversas categorias, mas essencialmente consistem em investimentos que visam impactar a sociedade e meio ambiente de forma positiva, aliado a um retorno financeiro – principalmente para que a ação seja autossustentável.

Esse tipo de investimento possui uma postura mais ativa, com a finalidade de gerar impacto. Gradualmente, está ganhando mais espaço entre os investidores, que até então priorizavam o Investimento por exclusão – no qual apenas se deixa de investir em setores que contrariam seus valores e causam impactos negativos à sociedade.

Novogratz, anos após vivenciar as consequências da filantropia no cotidiano de populações carentes, criou sua própria empresa voltada à geração de impactos positivos, em 2001. Desde então investe em iniciativas que tenham como meta o combate à pobreza e a diminuição da desigualdade, sendo modelo para empresas que desejam contribuir para a sociedade sem abdicar dos retornos financeiros, apesar de eles não serem uma prioridade.

O Investimento de Impacto se sobressai em relação à filantropia por garantir que, ao longo do tempo, a doação não se faça mais necessária, e os beneficiados tenham recursos para lidar com a situação de forma autônoma, sem depender de constantes atos de caridade. Dessa forma, as causas apoiadas disfrutam de maior estabilidade e longevidade, impactando mais pessoas.

Ao mesmo tempo, investidores encontram no Investimento de Impacto um novo setor para aplicar seus recursos, com um amplo leque de possibilidades ainda pouco exploradas. Além disso, ao contrário da filantropia, podem esperar um retorno do valor investido, em uma dinâmica de sustentabilidade no longo prazo.

 

[i] Bill and Melinda Gates Foundation. “Consolidated Financial Statements December 31, 2014 and 2013”

[ii] NOVOGRATZ, Jacqueline. The Blue Sweater: Bridging the gap between rich and poor in an interconnected world. Nova York: Rodale, 2009.

 Sobre a autora 

Clara atua no desenvolvimento de conteúdo e pesquisa na INEO.

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