Agnelli: da Fiat à família investidora

 em Cases

Uma das mais conhecidas famílias do mundo, a italiana Agnelli, está sob nova direção e novo sobrenome. John Elkann pertence à quinta geração da família que fundou a Fiat, filho de Margherita Agnelli e Alain Elkann, de família francesa. Na juventude já demonstrava interesse e aptidão para os negócios ao acompanhar o avô Gianni no cotidiano da Fiat, da qual tornou-se vice-presidente aos 27 anos; sua atuação contribuiu para a recuperação da maior crise da empresa e lhe rendeu o título de maior líder de negócios familiares em 2011 pela Campden FB[i]. Atualmente à frente da Exor, a holding familiar que administra todas as empresas investidas, da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e da Ferrari, ele vem modernizando os investimentos de acordo com os interesses da família, com uma filosofia marcante de família investidora. A meta é perpetuar a riqueza por ainda mais gerações através de um patrimônio renovado, após mais de 100 anos de atividade com grande foco no setor automobilístico.

Ascensão e queda

Fundada em 1899, no início do século XX a Fiat deu um salto na produção, originando a fortuna do patriarca Giovanni Agnelli e possibilitando a construção de um portfólio diversificado. Nos anos 1920, a família tornou-se a principal acionista do clube de futebol Juventus F.C., que os acompanha até hoje, e ainda fundou o Istituto Finanziaro Italiano (IFI), sua própria holding para controlar suas empresas de diversos setores, que passaram a incluir também a CNH Industrial, Ferrari e outras automobilísticas.

A Fiat cresceu junto com a Itália, especialmente após a segunda guerra, quando a economia se tornou umas das principais da Europa, chegando a representar cerca de 5% do PIB industrial do país nos anos 1980. Porém, enfrentou sua maior crise na transição para os anos 2000 e esteve à beira da falência, ao final da gestão de Gianni Agnelli – herdeiro da terceira geração e “rei sem coroa da Itália”, figura emblemática da família – que teve fim com sua morte, em 2003. Em seguida Sergio Marchionne assume como presidente da empresa e John Elkann como vice, conseguindo recuperar os lucros da Fiat e reerguer o patrimônio. O portfólio passou por uma importante reestruturação em 2008 quando o IFI foi transformado no que conhecemos hoje como a Exor, cujo valor patrimonial é de US$ 23 bilhões[ii] e sobre a qual a família possui 52.99% das ações. Através da Exor, os Agnelli conseguem gerenciar todo o patrimônio de forma global e profissionalizada. Em 2009 ainda foi criada a FCA, fusão entre Fiat e Chrysler que salvou a segunda empresa, pertencendo ao portfólio da Exor.

Visão de família investidora

As antigas lideranças davam continuidade aos negócios sem vislumbrar um portfólio de ativos mais amplo e estratégico, concentrando os ativos de modo setorial e geográfico. Após toda a trajetória empreendedora da família ao longo das 4 gerações, foi o protagonismo de John Elkann que transformou a postura da então família empresária, em uma de família investidora.

Em 2011 ele tornou-se o presidente da Exor e da FCA, realizando transformações que almejavam revitalizar o patrimônio familiar. Pensando nos resultados a longo prazo para a Exor, Elkann abriu mão de investimentos em determinados setores e incluiu novos, buscando não somente uma diversificação em relação aos tipos de ativos, mas também geograficamente, com um portfólio menos concentrado na Itália. Seguindo essa lógica, a Exor transferiu sua sede para a Holanda, a Ferrari mantém sede tanto na Holanda quanto no país de origem, além de ter feito um IPO bem sucedido na NYSE em 2015, e outras empresas do portfólio – CNH Industrial, Economist Group e a própria FCA – estão sediadas atualmente no Reino Unido. Somente o Juventus permanece sediado na Itália.

A mais recente transformação na Exor veio com a compra da PartnerRe em 2016, empresa americana de resseguros e que hoje é o segundo maior ativo do portfólio da Exor, por US$ 6.1 bilhões. Com essa incorporação, a FCA e automóveis deixam de ser o único centro do patrimônio e os Agnelli apostam em uma nova classe de ativos que esteja adequada aos objetivos da família – a resseguradora, com grande caixa, passa também a ser um veículo de investimentos para a família. Após a incorporação da PartnerRe foi criada a Exor Seeds, um fundo de venture capital que investe em startups de tecnologia, principalmente nos Estados Unidos – outra ação idealizada por Elkann para inovar no portfólio da família, defendendo que os Agnelli estariam voltando às suas origens empreendedoras. Metade do capital do fundo vem da Exor e a outra metade da PartnerRe, totalizando US$100 milhões.

Distribuição do portfólio da Exor (2018)

Fonte: Exor’s Investor and analyst conference call (2018).

A família Agnelli e a sociedade italiana

Elkann deixou claras as suas ambições de longo prazo ao fundar, em 2018, a School of Entrepreneurship & Innovation (SEI), escola voltada para universitários que serão a futura geração de empreendedores italianos. Com isso, busca qualificar gratuitamente os estudantes de maior destaque da região de Turim e revitalizá-la como um novo polo para o empreendedorismo no futuro. Junto a fundações apoiadas pela família, a SEI é um dos instrumentos que compõe o capital social dos Agnelli – voltado à relação da família com a sociedade e visando causar um impacto positivo no país.

Já o Juventus F.C. é outro elo da família com a Itália. O clube, atual campeão italiano, esteve nas últimas manchetes mundiais pela entrada de Cristiano Ronaldo, cujos gastos com contratação e salários chegaram a custar cerca de EUR 340 milhões, segundo relatório da KPMG[iii]. Para arcar com a ação o Juventus precisará aumentar suas receitas operacionais – na melhor das hipóteses, os ganhos com a contratação chegarão a EUR 595 milhões, considerando a receita com o público, patrocínio, eventos e publicidade. Resta saber se o investimento terá o retorno esperado, mas o cenário é promissor: no dia em que foi anunciada a contratação, o valor das ações do Juventus subiu em 50%, agregando valor à Exor.

Desafios e perspectivas para o futuro

A morte de Marchionne, em julho de 2018, antecipou a sucessão da presidência da Fiat, ao mesmo tempo que a montadora perde competitividade mundialmente. O desafio agora é manter os bons resultados atingidos com Sergio Marchionne, substituído por Mike Manley, que estava à frente da Jeep. A diversificação do portfólio com novas classes de ativos torna-se crucial para que o patrimônio familiar não dependa somente do delicado setor automobilístico; entretanto, ainda é cedo para dizer se essa estratégia de diversificação será bem sucedida e se o risco de investir um alto valor em setores inéditos para a família, como o de resseguros, valerá a pena.

Com a nova visão de Elkann, a família espera recuperar o êxito de seus investimentos e superar de forma concreta a dependência da Fiat, investindo em um capital financeiro diversificado para correr menos riscos em um futuro que é incerto para o automobilismo. Além disso, a ênfase no capital social da família demonstra que a nova geração é capaz de enxergar seus retornos em um horizonte de longo prazo, pensando no bem estar do patrimônio de forma global e na sua longevidade como família investidora.

[i] Campden FB. Top 50 Family Business Leaders (2010).

[ii] Exor (2018)

[iii] From Madrid to Turin: Ronaldo Economics. KPMG (2018)

 

Confira também o case completo sobre a família.

 

CLARA LINS GOMES

Responsável por Pesquisa & Desenvolvimento de conteúdo na INEO.

Postagens Recentes

Deixe um Comentário

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar